Desafios e oportunidades da vida online: acessibilidade digital como investimento

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Vivemos um momento muito peculiar de nossa história, no qual estamos nos adaptando a uma vivência mais online que física. E esta é uma tendência que deve permanecer em nossa sociedade. Muitos de nós temos ou tivemos dificuldades para realizar nossas tarefas do dia-a-dia de dentro de nossas casas, como fazer compras de mercado e farmácia, finalizar nossos estudos ou acompanhar nossa situação financeira. Mas, a tecnologia e a web tornam essa vivência muito mais fácil, certo? Não para todas as pessoas.

Se as plataformas e websites não estiverem acessíveis, realizar essas atividades pode ser uma tarefa árdua, frustrante e até mesmo impossível para algumas pessoas, como as pessoas com deficiência e com idade avançada, dentre outras.

A web é essencial para interagirmos com a sociedade. Ter um canal de comunicação livre de barreiras e conteúdo acessível é de fundamental importância e, nos dias de hoje, se tornou uma questão de sobrevivência.

Apesar de ser um direito garantido por lei, a acessibilidade na web ainda não é uma realidade.

O estudo “As principais barreiras de acesso em sites do e-commerce brasileiro” realizado em janeiro de 2018 pelo Movimento Web para Todos e Ceweb.br, com o apoio do W3C Brasil, mostrou dados alarmantes. Em 43% dos testes, não foi possível encontrar os dados de qual empresa a loja se tratava e em 28% dos testes, os usuários não conseguiram concluir o processo de compra, que envolve muitos passos, como encontrar os produtos, adicioná-los aos carrinho, realizar o cadastro e finalizar a compra.

Um estudo mais recente, realizado pela BigData Corp em conjunto com o Movimento Web para Todos e divulgado em maio de 2020, avaliou 14 milhões de sites ativos no Brasil. Segundo a avaliação, menos de 1% dos sites não apresentou nenhuma barreira de acesso. Os e-commerces estavam no topo.

Aldenisa Almeida, analista de diversidade na PwC é cega e nos conta que já chegou a escolher os produtos em uma loja virtual e não conseguiu finalizar a compra porque não encontrou as formas de pagamento.

Estudar à distância não é uma tarefa mais fácil. Outro estudo do Movimento Web para Todos, com ajuda do grupo de trabalho de acessibilidade na Web do Ceweb.br publicado em 2017, avaliou as melhores universidades e escolas de ensino médio do País e mostrou que diversas inadequações de conteúdo, programação e design podem ser barreiras que afetam a navegação do usuário.

“Links não acessíveis por navegação por teclado, imagens sem texto alternativo, vídeos sem legenda e Libras são apenas algumas das barreiras tecnológicas encontradas nesses sites.”, afirma a publicação.

Em 78% do sites, as imagens não estavam compreensíveis para pessoas com deficiência visual. Em 55% dos sites, as pessoas chegaram nos links por meio da navegação pelo teclado com leitor de tela, mas não prosseguiram. Isso ocorreu por vários motivos, tais como: o cursor se perdeu com frequência na navegação, faltou indicação visual nos links selecionados, os links não estavam claros ao informar qual página seria aberta, dentre outros.

De acordo com o Censo 2010, as pessoas com algum tipo de deficiência ou limitação funcional correspondem a mais de 45 milhões de pessoas ou 24% da população no Brasil. Segundo a ONU, existe aproximadamente 1 bilhão de pessoas com deficiência, o que significa uma em cada sete pessoas no mundo. A acessibilidade na web não traz benefícios apenas para pessoas com deficiência, mas também para todas as pessoas em geral e também para as empresas.

Além de ser um aspecto da responsabilidade social das empresas, a acessibilidade web agrega valor fortalecendo a marca, aumenta a visibilidade nos sites de busca e melhora o desempenho trazendo um possível crescimento de público e fidelização de usuários e clientes. As empresas precisam começar a considerar a acessibilidade web não como um custo, mas como uma estratégia comercial, um investimento que trará vantagem competitiva e aumento nos lucros contribuindo, ao mesmo tempo, com a construção de um mundo melhor, onde todos têm as mesmas oportunidades.

Cláudia Nascimento é web designer e Co-Fundadora do Acesso para Todos (www.acessoparatodos.com.br) e Moduli (moduli.acessoparatodos.com.br). É vencedora do Prêmio Nacional de Acessibilidade na Web Todos@Web, integra o Grupo de Especialistas em Acessibilidade Web do W3C Brasil e é parceira da Goodbros.