Uma reflexão sobre a situação das pessoas refugiadas

sobre fundo degradê do vermelho escuro para mais claro, o título Vozes Inclusivas em branco e foto de Renata à direita

Muitas realidades desse mundo me tiram o sono e a sensação de incapacidade de transformar me é congelante. Quando apareceu a oportunidade de mentorar e auxiliar mulheres que estão refugiadas aqui no Brasil não hesitei e aceitei com alegria.

Quando olhamos para nossa realidade do dia a dia e percebemos nossas dificuldades, reclamamos porque temos muitas atividades, obrigações, estresse etc, como família, trabalho, contas para pagar, dinheiro, trânsito, chefe, pandemia e tudo mais que a sociedade moderna nos ocupa. Realmente há dias que são difíceis. E difícil é uma palavra que ganhou grandes proporções nos últimos dois anos!

Nesse momento, eu te convido para uma reflexão: imagine todas essas situações que hoje há em sua vida e mais aquelas que eu não tenha elencado e adicione as certezas, citadas a seguir, como se também fizessem parte do seu dia a dia.

A certeza de que você não poderá ficar onde tem suas raízes, a certeza de que você não poderá ficar onde estão os seus familiares, a certeza de que você não poderá ficar no lugar onde está a sua história, suas lembranças, seus amigos de infância, sua cultura; a certeza de que você abandonará tudo e carregará só aquilo que é possível que suas mãos, braços e costas aguentarem; a certeza de que irá para um lugar onde você não sabe muito bem como será, embora você espere que seja o melhor possível; a certeza de que, baseado nessa expectativa, esperança e muitas vezes como única opção, você irá para um outro país, com um outro idioma, outros costumes, uma outra cultura; a certeza de que recomeçará do zero a sua história, com um trabalho qualquer, quando há, indiferente da sua profissão ou formação.

Frente a todas essas novas certezas que farão parte do seu dia a dia, você terá ainda a certeza de que será necessário reconstruir sua vida do zero em um país totalmente desconhecido e muitas vezes contando com ajuda de estranhos. Você se lança ao desconhecido não porque busca uma aventura ou não sinta medo, mas porque o desconhecido ainda é mais seguro do que a própria realidade, do que seu próprio país.

Esse é um pequeno testemunho de experiências que tenho ouvido com verdadeiras lições de coragem e perseverança.

Convido você a olhar para sua vida, para sua família e se perguntar:

“Eu teria a mesma coragem? Em qual situação eu me tornaria pessoa refugiada? Seria eu capaz de fazer a mesma coisa?”

Conheci famílias que entraram por Roraima, atravessaram o Brasil inteiro e estão hoje em Santa Catarina em busca de oportunidade para empreender, em busca de um cenário mais acolhedor, em busca de dias melhores, de segurança para criar seus filhos, de segurança para amar o companheiro ou a companheira. À procura de segurança para trabalhar e conquistar uma vida digna com paz.

Acordar todos os dias com a certeza do incerto e, mesmo assim, continuar! Se isso não for coragem, eu não sei o que é a coragem.

Se não bastassem todas essas inseguranças, essas famílias ainda se deparam com a xenofobia_*_, roubos, trabalhos mal remunerados (ou não remunerados) e outros tipos de abusos.

São histórias de vidas humanas, de exemplos de superação, de pessoas que perderam tudo, inclusive familiares, para a violência ou para as guerras. Por isso, esse texto te convida para uma reflexão e para um exercício de empatia. É um exercício desafiador se imaginar no lugar do outro quando você e sua família não correm os mesmos riscos, os mesmos perigos que o outro. Ver o outro exige cautela porque sempre seremos reféns das lentes da nossa própria realidade. Ouvir essas pessoas e entender suas necessidades e perceber onde seu conhecimento poderá ajudá-las nesse novo começo é um exercício de empatia, é ser humano.

Renata Cavalheiro é fundadora da Prosperus Planejamento Financeiro, focada no propósito e bem-estar do cliente. Possui 29 anos de experiência na área financeira, com pós-graduação em Planejamento Financeiro e Finanças Pessoais pela PUC, com MBA em Gestão de Negócios pela FIA e Custos, Orçamento e Indicadores de Desempenho pela FGV. É voluntária no Grupo Mulheres do Brasil e atuante no Comitê de Refugiadas.

* xenofobia é o medo ou ódio por estrangeiros ou estranhos, e está vinculada a atitudes e comportamentos discriminatórios e frequentemente culmina em atos de violência, como diferentes tipos de abuso e exibições de ódio. (fonte: Xenofobia no mundo: o que é e por que acontece? - Politize!)